te amo no on the road, baby
se eu disser que te amo é mentira, não posso dizer, não posso te dizer nada disso, nada parecido com isso porque eu não sou quem eu penso que sou, sou outra, sou duas, sou três e outras tantas que nem sei quem são. isso não quer dizer que eu tenha dupla personalidade nem que seja esquizofrênica, a verdade é que eu tive que me adaptar ao Pantanal, nunca mais Ópera de Arame, as praias com as areias brancas de Santa Catarina, sequer os morros e as asas-deltas do Rio de Janeiro. estou sempre em curso, como um rio.
você me olha e diz que ri sempre do perigo, o que conforta meu coração de beatnik, mas ao mesmo tempo faz com que me sinta uma puta maldita que te olha com alguma superioridade e te norteia em ser mais meu hoje do que você foi ontem. isso é maldade? saber que tudo isso que você diz é só e sempre só pra mim? talvez. mas eu sou uma puta maldita que faz poesia com concreto e fotografias.
mas isso não faz nenhuma diferença.
então eu coloco aquela garota pra cantar mais uma vez enquanto saio para mais uma noite de cerveja e tequilas por Pinheiros e é como se eu pudesse ouvi-lo respirar bem ao meu lado. toda aquela conversa sobre road trip, Maverick e alguns pares de Ray-Ban não ecoam como um grande delírio coletivo. eu preciso te confessar, é uma boa realidade da qual podemos compartilhar e sorrir sorrisos de crianças arteiras - porque é o que de fato nós somos - e em algum lugar desse Brasil poderemos pular pelados do alto de uma pedra numa bela cachoeira. haveria nossas bocas, nossas roupas jogadas em alguma árvore. o que daria uma bela cena. uma cena de cinema.
senta aqui, Woody Allen, vamos fazer um filme.
posso ouvir o rádio do nosso carro tocando alto alguma música, Pomplamoose, aquela voz doce, um violão suave de fundo, teclados de piano, um acordeom, as portas do Maverick abertas, maços de cigarro vazios pelo chão, algumas mochilas no banco de trás, caixas de chocolate, algumas garrafas de vodka ainda cheias, poemas anotados e colados nos bancos, no teto do carro, no porta-luvas, poemas de nós três e outras noites mal-dormidas em hotéis baratos.
é noite, estamos na estrada deserta e eu posso senti-la dormir belamente no banco de trás.
pode ser que eu te devore logo e esse sonho acabe bem antes de conseguirmos chegar perto de realizar essa viagem de vinho, de línguas e de luas. isso tudo me parece bem real. sim, querido, um dia estaremos todos mortos. não acredito mais em explicações cartesianas, nem em teorias psicanalíticas porque tudo sempre dá gastos imbecis com contas, remédios, discussões inúteis sobre o que achamos - nossas medíocres opiniões. quem quer saber o que achamos, me diga, nunca resolveremos a estupidez da humanidade que mata baleias, assassina índios e estupra crianças.
você viu a vista da minha janela?
de qualquer maneira, quero deixar claro aqui que te amo, sim, amo tuas rugas e teu bom dia quando me abraça e beija minha nuca. poderíamos ser qualquer coisa, café da manhã na padaria, compras de supermercado para um almoço colorido e saudável no horário certo e sempre uma boa trilha para garfos e facas, rede na varanda para começo de noite e você lendo Bukowski e nós falando de tiros, numa tentativa infantil em parecermos um pouco William Burroughs.
você sabe do que eu tô falando, não sabe? eu sei que sim.
Camaleoa